Os Tapirapé - Uma tribo tupi localizada no Brasil Central Uma síntese de uma história de resistência
I Fórum de Consciência da Cultura Indígena (Fazenda Campos Novos - abril de 2004)
* Elísio Gomes Filho
"Sua história e destinação constituem um exemplo a mais da saga de centenas de micro-etnias que, no mundo inteiro, enfrentam o abuso de civilizações tecnologicamente mais complexas(..)A triste saga dos Tapirapé tem se repetido, Brasil afora. A trajetória de muitas tribos terminou com sua completa marginalização(...)A história dos Tapirapé não é certamente única, exceto talvez pelo fato de estarem entre as poucas tribos que sobreviveram(...)Em termos desse cenário melancólico, a história dos índios Tapirapé tem um significado adicional. Constituem um caso exemplar de uma pequena tribo que sofreu rápida depopulação e deslocamento do seu território aborígene e, agora, está ameaçada de ser removida das terras que ocupa. Contudo, eles tem resistido e tentado sobreviver como uma unidade cultural e social distinta. Se serão capazes de continuar a expandir sua população, alcançar um ajustamento com a crescente população de brasileiros que os rodeia, reter sua identidade como um cultura e um povo distinto e resistir a invasão de novas forças econômicas, como aquelas representadas pelas companhias imobiliárias, tudo isso depende, em larga extensão, de fatores que estão fora de seu controle(...)O desaparecimento de sociedades como a descrita neste livro seria uma perda irreparável para a humanidade. Sua sobrevivência depende de decisões do homem civilizado e da urgente ação das nações que as têm dizimado".
Charles Wagley, antropólogo, 1977 - (1)
No fim da década de 70 do século XX, escrevia então o antropólogo acima citado que os Tapirapé não possuem meios para competir com a estrutura política, econômica e social de uma nação moderna dentro da qual, desordenadamente, estão inseridos. Eles têm sobrevivido aos primeiros estágios de contato com as frentes de expansão como povo distinto e com identidade cultural própria, "mas somente o tempo dirá se sobreviverão quando o Brasil moderno tornar-se mais intenso".
Os Tapirapé é um povo amazônico, já que seu modo de vida representa uma adaptação à floresta tropical úmida e constituem um povo claramente intruso na vasta região marginal à bacia amazônica, por constituírem uma tribo isolada que fala uma língua pertencente ao tronco lingüístico Tupi-Guarani, cercada por povos de diferentes línguas. Cabe dizer que todas as pequenas tribos que falam Tupi no Brasil Central são provavelmente refugiadas que migraram da costa pouco tempo depois da descoberta do Brasil. O principal grupo de povos tupi-falantes foi encontrado ao longo do litoral e estavam divididos em numerosas tribos, entre elas as dos índios Caeté, Tamoio e Potiguara.O antropólogo Alfredo Métraux(1927) mostrou que a migração dos grupos costeiros intensificou-se com a chegada dos colonizadores. Já a comparação entre a cultura Tapirapé e a dos Tupi da costa, mostra estarem intimamente relacionados tanto no que se refere a artes como à tecnologia, mitos e religião. Porém nunca saberemos ao certo se os Tapirapé estavam entre os grupos de refugiados que migraram em direção a oeste a partir do litoral; se estavam, nunca conheceremos sua rota de migração, nem suas experiências nos últimos três séculos. Especulou-se até que eles foram remanescentes das aguerridas tribos de índios Tamoio que habitavam a costa entre Cabo Frio(RJ) e Ubatuba(SP), das quais, milhares de seus habitantes ou foram mortos por guerras e doenças, ou escravizados ou aldeados pelos portugueses no final do século XVI.
O território da tribo Tapirapé em 1900 e antes dessa data, estendia-se para oeste do rio Araguaia e norte do rio Tapirapé( região situada no atual Mato Grosso). Dentro dessa imensa área, havia cinco de suas aldeias, cuja distância entre uma e outra girava em torno de um dia de caminhada. Todas elas situavam-se na floresta, distantes dos tributários do rio Araguaia. Segundo a sua história oral, cada uma das aldeias, tinha uma população de 200 a 300 pessoas, onde cada uma contava, geralmente com seis a dez malocas, cada qual abrigando de 30 a 40 pessoas. O tamanho da aldeia Tapirapé e a forma como era construída, seguiam padrões dos antigos Tupi da costa, tal como era os das tribos dos famosos índios Tamoio.
Por volta de 1910, o isolamento dos Tapirapé é quebrado. Naquele tempo, a aldeia Anapatawa(aldeia do Peixe Anapa), já tinha sido abandonada. Atribui-se seu desaparecimento aos repetidos ataques desfechados pelos belicosos Kayapó. Os que deles fugiram, juntaram-se as aldeias mais ao sul. Mas em torno de 1908, a aldeia Moutawa(aldeia da Árvore de Mouwa) foi também abandonada. Segundo a tradição, metade da população foi eliminada por febre, talvez malária. Os sobreviventes foram viver em Chichutawa(aldeia do Peixe). Em 1910, quando a primeira expedição brasileira alcançou a aldeia Tampiitawa(aldeia do Tapir) os Tapirapé se encontravam bastante reduzidos. Logo depois, muitos morreram em todas a aldeias restantes( das cindo originais restavam apenas três), alguns de gripe e outros de simples resfriado. A aldeia Mankutawa estava com uma população tão reduzida que foi abandonada; seus sobreviventes foram então para Tampiitawa, atraídos pelos artefatos manufaturados, tal como ferramentas, as quais eram fornecidas pelos missionários Dominicanos que se fixaram em 1914 em Conceição do Araguaia.
O primeiro registro explícito de uma visitante não-indígena à uma aldeia Tapirapé data de 1911, quando um grupo de cearenses subiu o rio Tapirapé e andou por 50 quilômetros através das savanas em direção à floresta à procura de seringueiras. Felizmente para sorte da tribo, não havia seringais em seu território, caso contrário haveria uma corrida de seringueiros para o lugar. A invasão do território Tapirapé foi, assim, adiada por mais de uma geração.
Até 1939, os Tapirapé tiveram somente contatos esporádicos com brasileiros ou quaisquer outros indivíduos europeus e muitos desses contatos tinham ocorrido fora de suas comunidades nativas. Mesmo assim a depopulação continuou(entre 1932 e 1935, houve de 50 a 60 mortes na aldeia Tampiitawa e refugiados de outras aldeias para lá se dirigiam). Em 1939, restavam apenas as aldeias Tampiitawa e Chichuatawa, esta contava com apenas 40 pessoas, e a primeira somente com 147 habitantes. Contudo, os eventuais visitantes brancos atingiam negativamente os Tapirapé mais do que imaginavam, pois continuavam a trazer doenças. Vale então dizer que por toda a parte, os povos indígenas da América morreram em grande número devido à transmissão de doenças do Velho Mundo, contra as quais tinham pouca ou nenhuma imunidade. Morriam facilmente de infecções respiratórias, de sarampo, de coqueluche, de catapora e de febre amarela. Além disso, um grupo indígena, tal como os Tapirapé, não carecia entrar em contato direto com os brancos para adquirir doenças; muitas vezes, foram infectados através de contatos casuais com outros grupos indígenas, que já tinham sido anteriormente infectados. Isto ocorreu, provavelmente, como os Tapirapé, quando ficaram expostos a novas doenças, antes mesmo do contato direto com os brancos. Durante a permanência do antropólogo Charles Wagley em dezembro de 1939 em seus domínios, os índios de Chichutawa, juntaram-se aos da aldeia Tampiitawa, ficando então os Tapirapé reduzidos a uma única aldeia. A despeito da perda catastrófica de população, os Tapirapé, em muitos aspectos, viviam em 1939-40 tal como em 1900.Possuíam ferramentas dadas pelos brancos, mas sua vida econômica ainda estava baseada na horticultura de floresta tropical, suplementada pela caça e pela pesca. A caça era farta, e, na estação seca, os peixes e tartarugas abundavam o rio Tapirapé. Fabricavam suas redes de dormir de algodão nativo. Poucos possuíam panelas de ferro, sendo as de cerâmica nativa as mais usadas. Muitos aspectos de sua organização social haviam sido perturbados simplesmente por falta de gente, ou seja, houve uma desorganização social resultante da depopulação. Regras de residência pós-matrimonial foram relaxadas e não era fácil para um jovem encontrar uma esposa. Algumas das suas festividades tinham caído em desuso ou eram realizadas com dificuldades. Mas extraordinariamente, em 1939-40, os remanescentes não eram um povo deprimido e desorganizado. Eram amistosos, geralmente alegres e sua cultura beirava a um estado aborígene bem mais próximo daquele que muitos antropólogos tiveram a oportunidade de conhecer. Contudo, os Tapirapé, sem o saberem, estavam sendo levados à extinção como povo e como sociedade autônoma - vítimas de uma processo histórico. Mas na avaliação de Wagley, parece um milagre que tenham escapado a tal destino.
A reconstrução da sociedade Tapirapé na Aldeia Nova(fundada em 1950 na boca do rio Tapirapé) próxima a um Posto Indígena destinado a protegê-los contra a exploração por parte dos sertanejos, é um exemplo extraordinário de separação e interdependência entre cultura e sociedade. Indivíduos e famílias tinham retido a cultura ancestral como um sistema de regras, ideologia e conceitos abstratos, durante o curto período em que sua sociedade esteve desfeita. Tão logo as condições o permitiram, a sociedade Tapirapé foi recriada segundo as regras abstratas de sua própria cultura. Em 1950-51, os remanescentes Tapirapé reestruturaram sua aldeia e sua sociedade. Em 1957 quando o antropólogo Charles Wagley retornou ao encontro dos Tapirapé, havia somente 55 pessoas na Aldeia Nova; em 1965 eram 79 e em 1976, o governo brasileiro afirmou em relatório que havia 136 Tapirapé. Segundo Wagley, seria provável que, em mais uma geração, os Tapirapé elevassem sua população ao nível da que existia em 1940. Hoje, segundo informações da FUNAI a tribo conta com cerca de 380 índios.
(1) - A fonte mais importante sobre os Tapirapé, à exceção do trabalho do antropólogo norte-americano Charles Wagley( "Lágrimas de Boas Vindas: Os Índios Tapirapé do Brasil Central" ) é do antropólogo alemão-brasileiro Herbert Baldus(1899-1970) que publicou pouco antes de falecer, o monumental estudo: "Os Tapirapé: Tribo Tupi do Brasil Central". A experiência de campo de Baldus junto a essa tribo limitou-se a cerca de seis semanas, em 1935, e a um período mais curto, em 1947. Seu interesse se centrava em estudos etnográficos comparados, especialmente de cultura material, e a difusão histórica de costumes e elementos de cultura. Ele pesquisou todas as fontes históricas dos séculos XVI ao XIX que pudessem elucidar as origens e as perambulações dos Tapirapé. Já Charles Wagley, a partir de 1939-40 efetuou curtas visitas aos Tapirapé, com a duração de poucos dias, mas em 1965, passou seis semanas entre eles. O título do seu livro: "Lágrimas de Boas Vindas: Os Índios Tapirapé do Brasil Central" é extraído de um costume praticado pelas tribos Tupi da costa - os prováveis ancestrais dos Tapirapé - costume este divulgado pela primeira vez em 1578. Os Tapirapé, compartilhavam desse hábito: tristeza e prazer evocados pela chegada de um visitante(um velho amigo ou parente).
* Elísio Gomes Filho: Pesquisador de história da UVA, Diretor de Pesquisa Histórica da A TEIA, pós-graduado em História do Brasil pela UCAM, pós-graduando em História Contemporânea pela UCAM e Fundador do nati-morto Museu Histórico Marítimo de Armação dos Búzios cujo acervo doou ao Museu Oceanográfico do IEAPM(Arraial do Cabo) em maio de 2002.
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