Índios. Porque os primitivos habitantes do continente americano são chamados assim?

2004-01-01 00:00

Na primeira viagem empreendida pelo ocidente em 1492, em busca das fabulosas Índias, o italiano Cristóvão Colombo deparou com terras habitadas por indivíduos completamente diferentes tanto no aspecto físico como no cultural. Eram os nativos do arquipélago das Bahamas. A primeira das ilhas em que o ávido genovês pisou, era chamada por seus habitantes de Guanaani, porém, de conformidade com a tirania de sua cultura, o místico Colombo rebatizou-a de São Salvador - tomando posse em nome da cobiça dos reis de Espanha e da fé do Papa, escravagistas. Pertenciam aqueles habitantes, à povos pacíficos que se autodenominavam Lukkunu; viviam em guerra defensiva contra os povos Caribe, os quais procuravam roubar suas mulheres e os expulsar de suas terras. Contudo veio o tempo aterrador de outro povo usurpador - tão mais feroz, tendo na mão uma cruz humilde e na outra, uma altiva e afiada espada à semear a morte. Símbolos de uma cruzada de extermínio e escravidão. O destino dos Lokkunu estava então selado - seriam as primeiras vítimas de uma doentia ordem econômica, social e religiosa, onde desempenhariam o duro papel dos escravizados. A matança começou e nunca mais cessou. O contato com o europeu, foi o contato com a morte. Da noite para o dia, tribos inteiras foram aniquiladas por um séquito de elementos vorazes, principalmente através da doenças que trouxeram do Velho Mundo.

Mas tarde os Lukkunu, já feitos bestas de carga, foram denominados de Tainos Aruaques - nome proveniente de uma tribo da Venezuela que os espanhóis chamavam de Araguacos. Os mansos Lukkunu eram os ocupantes principais das Antilhas, no tempo das expedições colombianas. Foi dos Lukkunu, que o navegador genovês, levou para a Espanha católica, as primeiras informações do que seriam para ele, as terras insulares próximas ao continente asiático.

Não obstante, por não existirem referências sobre aqueles "estranhos" habitantes, a cegueira de Colombo o fez supor serem "índios", ou seja, habitantes das Índias, pois diga-se de passagem que o genovês estava inteiramente convicto que tinha pisado nas terras das especiarias descritas por Marco Polo. E como irrefutável prova de seu suposto sucesso, levou das Antilhas para a Espanha, como escravos, alguns daqueles "índios". Logo, as equivocadas terras "descobertas" por Colombo, seriam denominadas Índias Ocidentais(denominação adotada pelos espanhóis para diferenciar o "Novo Mundo" das verdadeiras Índias - as Orientais). Depois, quando Colombo já se encontrava morto, os súditos do rei de Castela, surpresos, descobriram que a tão sonhada Catai(região norte da China) e o almejado Cipango(denominação dada ao Japão), não passava de um outro grande continente. Antes dessa inevitável constatação, Colombo morreria em 1506, sem saber que descobrira um novo continente, aliás novo, apenas do ponto de vista eurocentrista. Entretanto, mesmo assim, seus habitantes, continuaram a ser chamados de índios. Isto representa como muitos outros equívocos da história da expansão ultramarina européia, um símbolo de engano sobre a origem dos povos nativos das terras que sob outro engano haveriam de ser chamadas de Américas. Os conquistadores brancos, utilizaram a expressão Índio, para rotular então, todas as mal-aventuradas populações nativas do norte até ao sul do continente. Mal aventuradas, porque a mão-de-obra indígena, extingui-se rapidamente nos trabalhos forçados e pelas doenças.

Finalizamos dizendo que no período da conquista do Atlântico Sul, as tribos do tronco lingüístico Tupi-Guarani, ocupavam a maior parte da extensão da costa brasileira. E seria com elas que os portugueses - indivíduos de mente utilitária, inflexível e fanática tal como a dos espanhóis - haveriam de travar os primeiros contatos com os naturais do imenso território florestal brasileiro. Designado no anos subsequentes ao descobrimento cabralino sob formas diversas, o território brasileiro retiraria a sua denominação definitiva do produto em torno do qual se constituíram os primeiros fundamentos da sua história enquanto colônia de exploração: o pau-brasil. A primeira feitoria para extração da madeira tintória, segundo nossos estudos recentes foi erguida por Gonçalo Coelho em 1503, na barra de Cabo Frio, provavelmente na antiga ilhota, onde hoje se encontra o Forte de São Mateus. Em 1511, a nau Bretoa aportou no porto de Cabo Frio e embarcou 5000 toros de madeira, além de escravos e exemplares da fauna do Novo Mundo, principalmente papagaios.

Elísio Gomes Filho é Diretor de pesquisa da A TEIA

Texto da ilustração: Folha de rosto de um folheto publicado em 1493, tendo um carta de Colombo, dando conta da viagem descobridora que fez em 1492. A gravura colombiana, estampava em todos os seus elementos figurativos "aquilo que era notícia, isto é, o ponto máximo da informação mais nova": a descoberta de ilhas e povos pelo rei da Espanha - as Antilhas e os índios Tainos Aruaques.

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